13/11/14

Resposta a um poema

A instável, viva multidão vermelho-púrpura,
e ao sol, serena solidão: o meu poema
Nenhum desejo - a breve fama, o amor urgente
Da fortaleza nasce um canto, ao mais profundo
Agradecida, à simples clara flor inclino-me
Viver reclusa e só, entregue a esta procura
é todo encontro superar em amor mais puro
como elevar-se entre montanhas basta ao pinheiro

Yu Xuanji, poeta da dinastia Tang

07/11/14

SALÁRIO

Fazia subir a dor na ferida
e as sedes na boca
atrasava a carne corrompida

tinha uma manga maior que o braço
do tempo nos ombros
menor que as horas na linha
pano de sobrar o não-pago

Era de sal
mas agora está em atraso.

Inês Carvalho

30/10/13

MULHERES

Há nas mulheres
o sono duma ausência
como uma faca
aberta sobre os ombros

à qual a carne adere
impaciente
cicatrizando já durante
o sonho

E há também
o estar impaciente
calarmos impacientes
todo o corpo

Sorrir não devagar
claramente
lugares inventados sobre
os olhos

E há ainda em nós
o estar presente
diariamente calmas
e seguras

mulheres demasiado
serenamente
nas casas nas camas
e nas ruas

E como toda esta herança
não chegasse
como se ainda quiséssemos aumentá-la
fechamos os braços de cansaço
como se da vida
chegasse o inventá-la

E se do sono
nos vem o esquecimento
quantas insónias
cansamos nós por dentro

in Poesia Reunida ("Jardim de Inverno")
Maria Teresa Horta