04/04/16

Com o fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo com fumo
porque o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima
muito
e como queima muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo

Adília Lopes,
in Um Jogo bastante perigoso, 1985.
Dobra - Poesia Reunida 1983-2014

13/03/16

REVOLUÇÃO E MULHERES DE NOVO (uma re-leitura da Maria Velho da Costa)

1. RECONSTITUIÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO
Elas são cinco milhões, o dia nasce, elas abrem os estores. Elas cortam o pão e fazem café. Elas escrevem a divisão de tarefas para o resto da semana. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas fazem panelas de sopa que congelam em pequenas caixas de plástico para vários dias. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e pastas de escola. Elas fazem três máquinas com os lençóis e as camisas que hão-de sujar-se outra vez. Elas aspiram o chão e correm com os insectos para que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas fazem contas complicadas para saber onde são os supermercados mais baratos. Elas contam cêntimos. Elas criam páginas de facebook onde vendem os velhos cachecóis de malha que a avó lhes ensinou a fazer. Elas trocam tutoriais sobre comida japonesa. Elas fazem limpezas em cinco casas diferentes e mais dois escritórios. Elas sairam de casa às 4 da manhã. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o autocarro e o barco. Elas já contam hoje 17 horas de trabalho. Elas pousam o casaco nas costas da amiga e trocam saudades em crioulo de países mais quentes. Elas têm habilitações a mais para trabalhar naquela loja. Elas não fizeram o nono ano porque na altura a mãe precisava que elas fossem trabalhar. Elas pousam os sacos das compras e abrem a porta com a mão vermelha. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com um garfo. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama. Elas também dormem.

17/02/16

Os Cravos Rubros

Quando ao negro cemitério eu for
Irmão, coloque sobre sua irmã,
como uma última esperança,
alguns cravos rubros em flor.
Do império nos últimos dias
quando as pessoas acordavam,
seus sorrisos eram rubros cravos
nos dizendo que tudo renasceria.
Florescerão nas sombras
de negras e tristes prisões.
Vão e desabrochem junto ao preso sombrio
e lhe diga o quanto sinceramente o amamos.
Digam que, pelo tempo que é rápido,
Tudo pertence ao que está por vir
Que o dominador vil e plácido
Também pode morrer como o dominado.

Loise Michel

07/11/15

A História apresenta-nos o homem como o grande herói da espantosa epopeia do género humano; o cérebro que pensa, a vontade que comanda, o braço que executa. A mulher, pelo contrário, é uma figura secundária, anónima. Contudo, ela esteve sempre presente no desenvolvimento das sociedades, como inventora, obreira e estimuladora, cujos esforços, labor e sacrifícios não conheceram limites.

Maria Lamas
In As Mulheres no Mundo