17/02/16

Os Cravos Rubros

Quando ao negro cemitério eu for
Irmão, coloque sobre sua irmã,
como uma última esperança,
alguns cravos rubros em flor.
Do império nos últimos dias
quando as pessoas acordavam,
seus sorrisos eram rubros cravos
nos dizendo que tudo renasceria.
Florescerão nas sombras
de negras e tristes prisões.
Vão e desabrochem junto ao preso sombrio
e lhe diga o quanto sinceramente o amamos.
Digam que, pelo tempo que é rápido,
Tudo pertence ao que está por vir
Que o dominador vil e plácido
Também pode morrer como o dominado.

Loise Michel

07/11/15

A História apresenta-nos o homem como o grande herói da espantosa epopeia do género humano; o cérebro que pensa, a vontade que comanda, o braço que executa. A mulher, pelo contrário, é uma figura secundária, anónima. Contudo, ela esteve sempre presente no desenvolvimento das sociedades, como inventora, obreira e estimuladora, cujos esforços, labor e sacrifícios não conheceram limites.

Maria Lamas
In As Mulheres no Mundo

17/06/15

O corpo de dorido
Entrega-se ao quebranto
resignado
Cansado de lutar
Surpreendido
O corpo    tudo deu
Ao dar-te a si
E por ao que se deu
Foi derrubado

Desiste do porquê
Do perguntar inútil

Olhos febris
Sem ver
Ainda fitam
O vidro que o sol bate

E de momento
Pela dor
Vencido fica

À dor agrilhoado
Corpo do corpo-escravo
Jaz, vencido

Mas logo vencedor
Pelo olhar 
Liberto


Pois que o olhar
Insiste
Deslumbrado

Maria Eugénia Cunhal
in História de Um Condenado à Morte

21/03/15

Não limpes as minhas lágrimas.
Elas nunca secarão.
Atira terra sobre o meu caixão
E cravos vermelhos sobre mim.
Nunca haverá nada para além do fim.
Deixa-me partir.
No meu silêncio.
Com as estrelas e o luar,
Dançando nas ondas do mar,
Deixa-me partir,
Num tango, ou numa valsa.
Deixa-me partir.
Para lá. Onde tudo é sonho.
Onde tudo é silêncio.

Idália Caeiro