17/06/15

O corpo de dorido
Entrega-se ao quebranto
resignado
Cansado de lutar
Surpreendido
O corpo    tudo deu
Ao dar-te a si
E por ao que se deu
Foi derrubado

Desiste do porquê
Do perguntar inútil

Olhos febris
Sem ver
Ainda fitam
O vidro que o sol bate

E de momento
Pela dor
Vencido fica

À dor agrilhoado
Corpo do corpo-escravo
Jaz, vencido

Mas logo vencedor
Pelo olhar 
Liberto


Pois que o olhar
Insiste
Deslumbrado

Maria Eugénia Cunhal
in História de Um Condenado à Morte

21/03/15

Não limpes as minhas lágrimas.
Elas nunca secarão.
Atira terra sobre o meu caixão
E cravos vermelhos sobre mim.
Nunca haverá nada para além do fim.
Deixa-me partir.
No meu silêncio.
Com as estrelas e o luar,
Dançando nas ondas do mar,
Deixa-me partir,
Num tango, ou numa valsa.
Deixa-me partir.
Para lá. Onde tudo é sonho.
Onde tudo é silêncio.

Idália Caeiro

08/12/14

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Cecília Meireles

04/12/14

Coragem

É o que vai pesar no prato da balança,
Bem o sabemos, é o que neste momento está em causa.
Soou nos relógios a hora da coragem.
Coragem não irá faltar-nos.
Cair sob balas mortais não será terrível,
Não será amargo ficar sem abrigo -
Havemos de preservar-te, língua russa,
Grande palavra russa.
Guardar-te livre e pura, para te dar
Aos nossos descendentes, liberta de jugo
Para sempre!

Fevereiro de 1942 
Ana Akhmatova

Tradução de Luiza Neto Jorge