30/01/13

Há um corpo que cai. Na terra, onde se dilui com a água, correspondendo ao espasmo gravitacional que o choque produz. A física  nunca nos deixa com falta de espanto pela sua irremediável certeza. São leis criadas pela cadência do fôlego vital. E o corpo retrai-se em forma circular, a forma perfeita que define as curvas do tempo. Membro a membro. Poro a poro. O inominável nome do corpo respira num ritmo regular, tal como se de regularidade fosse feita a sua extensão. O corpo não se deixa cair apenas pela força da gravidade. Também se deixa cair pela vontade. Para depois se levantar. E caminhar. Passo a passo.

Ângela Ribeiro 

25/01/13

BALADA DO PAÍS QUE DÓI

O barco vai
o barco vem

português vai
português vem

o corpo cai
o corpo dói

português vai
português cai

o barco vai
o barco vem

português vai
português vem

o país cai
o país dói

o tempo vai
o tempo dói

português cai
português vai
português sai
português dói

Ana Hatherly

In De Palavra em Punho – Antologia Poética da Resistência – De Fernando Pessoa ao 25 de Abril, org. José Fanha, ed. Campo das Letras

20/01/13

CAMPONESES

E ainda, ainda e sempre
esta queixa dou ao vento:
os que semeiam e regam
e fazem podas e enxertos,
os que cortam e carregam
debaixo de um sol de fogo
a melancia rosada,
o melão que cheira a céu,
ainda e sempre, todavia,
não têm "canto de chão".

Se o tivessem, não vagueavam
como a lanugem ao vento,
e se eu também o tivesse
não erraria como eles,
porque nasci, ouve bem,
pró amor, para o prazer
de semear milho que canta,
de espreitar os medronheiros
ou de ferver cada tarde
compotas sabendo a céu.

Mas foi em vão que em menina
descasquei a fruta ao sol
e em vão empilhei cachos
nas suas pequenas caixas,
e em vão espreitei as courelas
de medronheiros com dono,
porque os meus pais não tiveram
a terra dos seus avós,
e não fui feliz, ó corça,

e choro mesmo sem corpo,
sem ver as doze montanhas
que me velavam o sono,
ao dormir e acordar
com a fala de cem hortos
e com a sílaba imensa
do rio dentro do meu sonho.

Gabriela Mistral 
in Antologia poética

15/01/13


Na impossibilidade de encontrar um léxico adequado
Ou na incapacidade de encontrar um tal léxico
Direi apenas que há coisas para as quais não haverá nenhum léxico
E ficam assim, as coisas, deixadas à percepção subjectiva de quem as vive

Bárbara Bardas

10/01/13

VENHO NO CAMINHO DE VOLTA

1. se em altos cimos julguei albergar-me
é mais solitária a queda em que me acho.
lambida porém até ao fim com exigência.


2. já venho no caminho de volta tranquilo
sosseguem recuperei-me. ainda que aqui
neste ponto onde estou seja nulo meu ficar.


3. é fértil quand-même este estarmos?
amigos meus que não tenho nomeio só
há fumo-cortina aquém janela o lado de cá.


4. e além do mais exíguas as paredes todas
absurdamente exangues e caiadas
à espera de uma janela de magritte.


5. venho é verdade na vertente deste lado
contida a queda lambo-a até ao fim:
projecção minha já no sopé vê-me como desço.


6. se tivesse podido alguém viria comigo:
mas quem previsto de medos se não detém?


Wanda Ramos
in A JOVEM POESIA PORTUGUESA/1, ED. LIMIAR

05/01/13

Andreia Indica As Dores

enganei-me –
não há o viver a mesma coisa duas vezes
mesmo quando se instala a paranóia
do sofrimento antecipado revisto à
luz de experiências antigas
há sim desejos de relampagueares 
inspirados em acontecimentos com um
grau de probabilidade escasso

o inesperado, a descoberta, o construir, o assumir a verdade
= variáveis de indicadores 

Bárbara Bardas